terça-feira, 28 de julho de 2015

GIOVANNI ROSSI E A COLÔNIA CECÍLIA



Giovanni Rossi




Giovanni Rossi ( pseudônimo Cardias) ( 1856 - 1943) foi um anarquista italiano, engenheiro agrônomo e médico veterinário de profissão, escritor que por influência dos socialistas libertários experimentalistas franceses ( socialistas utópicos no jargão marxista), escreveu uma série de livros sobre a criação de comunidades experimentais. Foi membro da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) de Pisa, fundou a Colônia Agrícola Experimental em Cittadella em Cremona, e ganhou notoriedade ao tentar implementar a colônia experimental Cecília no ano de 1890, em território brasileiro, na cidade de Palmeira, estado do Paraná.

Biografia     

 Nascido em uma família de profissionais liberais, filho de pai advogado e mãe de uma tradicional família de médicos da cidade de Pisa, desde cedo Rossi é educado por tutores para seguir as profissões pré-existentes na família - medicina ou advocacia. Contrariando o desejo dos pais, escolhe estudar agronomia e veterinária na Escola Normal Superior de Agronomia onde se diploma em cirurgia veterinária. Em seu período de graduação tem contato com a literatura  socialista antiautoritária e logo passa a militar no partido socialista clandestino de Montescudaio.

Uma comuna socialista

 Entre 1878 e 1891 sob o pseudônimo de Cardias, Giovanni Rossi publica uma série de cinco livros chamada Une communesocialiste  (Uma  comuna socialista), na qual a personagem principal é uma mulher chamada Cecília. Neste ensaio o autor apresenta a história de uma comunidade libertária e coletivista, uma vila imaginada através da qual, critica a religião, a propriedade privada e a família nuclear. Em Novembro do mesmo ano Rossi é preso por suas idéiasantiestatais sendo liberado somente em abril de 1879 quando o caso é arquivado.
 Como osa demais membros da Internacional Rossi é perseguido pela repressão estatal italiana de sua época. Considerada marginal no contexto da política italiana de então, a proposta de Rossi vai ao encontro do projeto dos anarcosindicalistas e marxistas que divididos entre si apostavam na insurreição revolucionária como meio de transformação social. Se distanciando do inssurreicionalismo a proposta de Giovanni Rossi envereda para a possibilidade de resolução dos problemas sociais, do capitalismo e do estadismo - através do socialismo experimental cientificamente fundamentado, mais conhecido como comunismo experimental.

A Cittadella

 Após a prisão muda-se para Brescia onde, alguns anos depois em 1886 começa a publicar com Andrea Costa o jornal LoSperimentale( O Experimento), defendendo a criação de colônias cooperativas horizontais.
 Sua primeira tentativa em constituir uma comuna experimental acontece em Lagoa Lombardo, em Cremona, onde com o apoio do proprietário de uma pequena fazenda adquire uma área onde o solo será cultivado e as instalações erguidas. Em 11 de Novembro de 1887 é fundada a AssociationAgricoleCoopérative de Cittadella( Associação Agrícola Cooperativa de Cittadella) que rapidamente atinge resultados surpreendentes na produção agrícola a ponto de, no Expo Paris de 1889 a "massa falida''daCittadella- como eram chamados por seu críticos - recebem medalha de prata por seu êxito na qualidade e quantidade de seus produtos agrícolas.
 Apesar dos excelentes resultados, Rossi não estava plenamente satisfeito com a "experiência", já que, apesar de ser verdade que a Cittadella era completamente autogestionada e que nela todo trabalho havia sido coletivizado, e seus ganhos socializados, essas transformações no plano do trabalho não levaram a transformações nas relações pessoais entre trabalhadores. Nesse sentido Rossi considerava que o experimento da Cittadella não atingira êxito no sentido de estabelecer meios de coexistência libertários.
 Abandonando o projeto, Rossi decide por uma nova experiência de outro lugar onde possa ser possível estabelecer um verdadeiro laboratório social, apresentando melhores condições de avaliação. Pouco a pouco Rossi se volta para a possibilidade de mover seu experimento para a América e começa a procurar um local que pudesse oferecer maior possibilidade de êxito.


A Colônia Cecília



 A Colônia Cecília foi uma experiência anarquista do italiano Giovanni Rossi, no ano de 1890 no Estado de Paraná. 

Giovanni Rossi foi membro da I Internacional (torna-se membro em 1873) e desde sua adesão, manteve acesso o projeto de formar uma colônia experimental baseada no princípios de autogestão de sua economia, política e liberdade plena aos participantes. Nos meios libertários sua iniciativa não foi bem vista e criticavam esse caráter de fuga da luta que a imagem de uma colônia fazia. 
A Colônia Cecília não foi a primeira colônia coordenada por Rossi, anteriormente, na própria Itália, desenvolveu algumas, sendo a mais conhecida a da Cittadella, na aldeia de Stagno Lombardo (norte da Itália) e que é abandonada em 1889. Mas isso não tira de Rossi sua disposição para tal iniciativa.
 Após a longa travessia de barco, os pioneiros desmbarcam no Brasil, Rio de Janeiro e mudam a decisão de irem para Porto Alegre. Irão para o Paraná, pelo acordo com o governo. Nos priemiros dias de abril, ele e seu  companheiro Evangelista Bendetti, acampam na região que seria a colônia, perto da cidade de Pameira (18 km).       
 Não há confirmação oficial de um tratado entre o Imperador e Giovanni Rossi a respeito de doação de terras, portanto é uma afirmação sem apoio histórico, o fato é que ele recebeu do recente governo republicano, a concessão de algumas terras com o acordo de que em 5 anos que as pagasse, transferindo assim a colônia o direito de posse, isso não aconteceu. Neste início, por perto de 16 pessoas, sendo apenas 1 mulher é que começam o trabalho da terra, “sem regulamentos nem chefes”. 

Preparam o terreno e constroem alojamentos e depósitos de equipamentos e mantimentos, bem com cercados para os animais recém adquiridos. Tudo corre bem e no final de 1890, Rossi parte para Itália com o objetivo de obter mais voluntários para o projeto. Esses chegam em levas sucessivas, chegando aproximadamente à 200 pessoas em maio de 1891 (ver quadro populacional no livro). A estrutura da recente colônia não suporta o grande aumento, surgindo assim vários problemas consequentemente. Falta espaço nos alojamentos e há falta de alimentos. Em tal situação de emergência, formam um grupo de voluntários para trabalhar nas estradas do Governo. Outra alternativa usada foi a obtenção de crédito com os comerciantes, em Palmeira (lastreado no trabalho nas estradas). No entanto, a comunidade se mantém (produção de tijolo, aumento da horta, ampliação dos alojamentos etc).
 No entanto, no aumento da população da colônia e seu estado de pobreza generalizado, gera nos participantes, muitos dos quais, não tinham nenhum contato com o movimento trabalhador internacional ou conhecia as vertentes do socialismo, competitividade e um egoísmo forte se instalam em muitos (a sobrevivência vence a cooperatividade no grupo). Neste meio, instala-se o modelo político parlamentar e a ditadura de algumas famílias, corrompendo os princípios libertários de autogestão e coletividade/liberdade social. 
 Com um ambiente totalmente desestruturado, muitas famílias retiram-se da colônia, indo para a Curitiba. Em junho de 1891, restavam na colônia, sete famílias em disputa.  No mesmo mês, tento a frente sete jovens, reestruturam a colônia em moldes libertários (autogestão e liberdade plena).  Esta forma dura uns 4 meses, tento na colônia umas 30 pessoas. Por este período Rossi retorna a colônia, pois ele é a ponte entre a colônia e o mundo proletário, escrevendo e apresentando a colônia ao mundo, convocando voluntários.
No fim de 1891 chega mais dois grupos de famílias, sendo que a população da colônia chega aproximadamente a 100 pessoas. Embora uma revigorada na comunidade, não se alivia muito a situação de competitividade e rivalidade, chegando mesmo a criar uma corporação informal de família (comparação de quem trabalha e quem não trabalha). Algumas famílias procuram se estabelecer independentemente da colônia. Como se verificava, a situação havia estagnado na colônia provocando um descontentamento e forçando a saída de muitos da colônia. Em abril 1892, o decréscimo populacional é muito grande, não há mais do que 40 pessoas na comunidade. Rossi solicita então a Cappellaro ir a Itália, para convocar novos voluntários para colônia.
 Neste período, alguns ex-participantes (os Gattai estão no meio) da colônia são presos por roubo, contribuindo para uma má imagem da comunidade (até então era boa e regular nas redondezas da colônia). Após este incidente, observa-se um deterioramento nas relações sociais da colônia e a sociedade brasileira em sua volta, sendo que o governador do Paraná pede observação severa da colônia. A favor esta apenas a imprensa local, que procura desassociar a imagem de criminalidade dos ex-membros da colônia com a própria colônia, este apoio embora importante, é muito pequeno perto da campanha maciça contra a “famigerada colônia”. 
No final de 1892, chega uma nova leva de famílias à colônia, subindo o número populacional para umas 80 pessoas. Os problemas anteriores, no entanto, se mantém, o autoritarismo de algumas famílias abafam o ardor libertário das novas famílias que chegam. Em 1893, há como houve anteriormente, saídas das famílias, descontentes com as condutas autoritárias de uns poucos. No período estima-se na colônia umas 50 pessoas. Após 3 anos de experiências da colônia, é apresentada a imprensa anarquista internacional um balanço geral da colônia. Rossi, sendo sincero, com sua perseverança  diminuída, apresenta reflexões críticas sobre a colônia, destacando as heranças burguesas que não são abandonadas na comunidade (inveja, gula, autoritarismo, intolerância etc). No aspecto sexual, Rossi apresenta um caso de um triângulo amoroso consentido, por parte do marido, de sua esposa por um outro. O ciúme e a dificuldade de lidar com situação são apresentados por Rossi. A falta de companheiras na colônia é um aspecto negativo que faz a moral cair. A idéia de amor livre (entende-se poligamia feminina) não é bem aceita no meio da comunidade, os conceitos conservadores e tradicionais ainda estão muito presentes nos habitantes da colônia.
 O fim da colônia esta marcada por dois fatores: A Revolução Federalista de 1893  (Maragatos e Picapaus). Os primeiros são federalistas, descentralização e autonomia dos Estados enquanto os segundos, republicanos, querem um governo forte e central. Os colonos cecilianos aderem aos Maragatos. Tal adesão à causa federalista promove uma retaliação do governo central brasileiro, confiscando e vendendo as terras da colônia. O apoio não é pela causa, mas pela atitude autoritária do governo (representantes do governo exigem pagamento de impostos e quebram instrumentos de trabalho e alojamentos da colônia).
Não há um fator especifico para o fim da colônia, mas vários que se destacaram ao longo de sua jornada, sendo que a data última da colônia seria em abril de 1894, quando as últimas famílias saem da colônia e se dispersam pelo país.




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